segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Não sei quantas almas tenho - Fernando Pessoa


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo :  "Fui  eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Feliz Ano Novo

 shutterstock_1930329

"(...) Hoje é o último dia do ano. Em todo o mundo que este calendário rege andam as pessoas entretidas a debater consigo mesmas as boas ações que tencionam praticar no ano que entra, jurando que vão ser retas, justas e equânimes, que da sua emendada boca não voltará a sair uma palavra má, uma mentira, uma insídia, ainda que as merecesse os inimigos, claro que é das pessoas vulgares que estamos falando, as outras, as de excepção, as incomuns, regulam-se por razões suas próprias para serem e fazerem o contrário sempre que lhes apeteça ou aproveite, essas são as que não se deixam iludir, chegam a rir-se de nós e das boas intenções que mostramos, mas, enfim, vamos aprendendo com a experiência, logo nos primeiros dias de Janeiro teremos esquecido metade do que havíamos prometido, e, tendo esquecido tanto, não há realmente motivo para cumprir o resto, é como um castelo de cartas, se já lhe faltam as obras superiores, melhor é que caia tudo e se confundam os naipes. Por isso é duvidoso ter-se despedido Cristo da vida com as palavras da escritura, as de Mateus e Marcos, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste, ou as de Lucas, Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito, ou as de João, Tudo está cumprido, o que Cristo disse foi, palavras de honra, qualquer pessoa popular sabe que é esta a verdade, Adeus, mundo, cada vez pior. Mas os deuses de Ricardo Reis são outros, silenciosas entidades que nos olham indiferentes, para quem o mal e o bem são menos que palavras, por as não dizerem eles nunca, e como as diriam, se mesmo entre o bem o mal não sabem distinguir, indo como nós vamos no rio das coisas, só deles distintos porque lhe chamamos deuses e às vezes acreditamos. Esta lição nos foi dada para que não nos afadiguemos a jurar novas e melhores intenções para o ano que vem, por elas não nos julgarão os deuses, pelas obras também não, só juízes humanos ousam julgar, os deuses nunca, porque se supõe saberem tudo, salvo se tudo isso é falso, se justamente a verdade última dos deuses é nada saberem, se justamente não é sua ocupação única esquecerem em cada momento o que em cada momento lhes vão ensinando os atos dos homens, os bons como os maus, iguais derradeiramente para os deuses, porque inúteis lhes são. Não digamos, Amanhã farei, porque o mais certo é estarmos cansados amanhã, digamos antes, Depois de amanhã, sempre teremos um dia de intervalo para mudar de opinião e projeto, porém ainda mais prudente seria dizer, Um dia decidirei quando será o dia de dizer depois de amanhã, e talvez nem seja preciso, se a morte definidora vier antes desobrigar-me do compromisso, que essa, sim, é a pior coisa do mundo, o compromisso, liberdade que a nós próprios negámos.(...)"

Saramago, José; in O Ano da Morte de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia das Letras, 1988 - pag. 55/56

sábado, 16 de outubro de 2010

Fiz da minha vida um picadeiro


Fiz da minha vida um picadeiro.
Engoli a seco todo fogo que me jogaram,
Tirei pombas da cartola nos tempos de guerra,
Fui domadora de leões, cavalos e éguas.

Andei sobre a corda bamba e sobre o monociclo,
No trapézio, o equilíbrio não foi vencido.
Lancei-me das pernas-de-pau quando foi preciso.
Ri dos malabares perdidos.

Apresentei corretamente a coreografia exigida
da música que não fazia parte da minha vida.
Fiz multidões sorrirem com a tristeza que sentia,
Fingi chorar para lhe fazer feliz.

Conquistei as mais distintas platéias,
Mas não sinto saudades dessa época.
Sou melhor hoje do que era.

[Michelle Lynn - 17/10/2010]

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Jerusalém - Gonçalo M. Tavares

Jerusalém
Gonçalo M. Tavares

Uma obra genial que, com certeza, rende inúmeras teses de mestrado. Os vários assuntos presentes nessa obra são de uma complexidade e aprofundamento considerável. Entre os assuntos presentes podemos destacar a morte como meio de se manter vivo e a loucura.
À medida que os capítulos avançam vamos conhecendo melhor os personagens. A cronologia é complexa e, muitas vezes, interrompida com voltas ao passado. A história se passa na madrugada do dia 29 de maio, enquanto o dia vai clareando os caminhos dos personagens se cruzam entre o presente e o passado, numa teia muito complexa e bem elaborada, chegando, por fim, num desfecho trágico.

O que mais me chamou a atenção no livro foi perceber que os personagens, assim como nós, são pessoas comuns, não há um personagem central e, também, não há vilões ou vítimas, todos passam por momentos em que sua personalidade é desafiada e contestada. Os medos e as inseguranças presentes se fazem em todos nós o tempo todo. Sentir medo de morrer ou sentir vergonha em estar vivo são sentimentos que nos afetam em muitos momentos de nossas vidas.

Pessoas comuns que não querem morrer, que ainda sonham em viver aquilo que não conseguiram por uma razão ou outra. Pessoas que se sentem pequenas e medíocres diante de outro ser humano. Pessoas que são discriminadas ou isoladas por não se adequarem ao sistema social vigente. Pessoas que precisam manter a qualquer custo uma identidade, uma autonomia.

Pessoas que sentem medo do passado, o medo de viver novamente o passado, o medo de lembrar-se do passado. O grande medo de sentir aquele terrível medo que sentiu no passado.

Alguns momentos de epifania são tão fortes e tão bem marcados no enredo que merecem ser notados, momentos em que a verdade se mostra tão nítida na nossa frente que se torna impossível não confrontá-la.

A instabilidade mental é figura recorrente no romance e a tentativa de buscar um equilíbrio é algo praticamente impossível, uma vez que as pessoas são imprevisíveis tanto nos seus estados físicos quanto mentais.

Percebo que este livro traz uma discussão bem mais ampla, seus personagens são profundos, densos, complexos e que não é possível falar sobre tudo em um único post. Como disse, no início, temos presente nesta grande obra, discussões para teses de mestrado em várias áreas distintas: sociologia, história, psiquiatria, medicina... enfim, Literatura.

O que pretendo aqui é instigá-los e apresentá-los a uma boa literatura, assim como fui apresentada pela querida amiga Margarida (Banzai), que me mandou esse livro de presente. Se conseguir terminar a faculdade de Letras, esta aí um bom livro para minha tese de mestrado!!! rsrsrs.

#Ficaadica para uma literatura universal e atemporal.

domingo, 10 de outubro de 2010

Presentinhos!!! \o/


Depois de muito tempo que ganhei esses presentinhos, venho postá-los!
Quem me enviou foi a Margarida (Lolipop), do blog Banzai,  só podia, não é mesmo?!! Só falo da Margarida... rsrsrsrsrs

Eu adorei! Demorei um pouco para fazer a bonequinha. É muito difícil!!! No primeiro dia que tentei chamei o Arthur, meu pequito de 4 aninhos, para me ajudar, achei que seria uma festa, nós dois fazendo juntinhos, tudo ótimo!!! Mas, não foi bem assim. Eu não estava conseguindo entender nadinha, o Arthur estava quase rasgando os papéis... aiaiaiaiaia. Então, falei para ele que iria ler o pap com calma e depois faríamos. Porém, esse tal de "depois" não chegava nunca, recebi muitas encomendas, o Motabilis ficou bastante parado e a bonequinha na estante de livros... hããã.
Quando foi esse final de semana, vi a bonequinha e o Arthur tinha saído com o pai (maridão), aproveitei a oportunidade e peguei para fazer, mais uma vez achei que fosse dar conta do recado. Outra vez, a história foi diferente... rsrsrs Levei cerca de 2 horas para fazer uma, apenas uma, bonequinha... ai Jesus!!! (Que lerda!!) As outras três estão esperando uma nova oportunidade!!!

Foi ótimo fazê-las, elas são lindas e delicadas. Foi super relaxante, nem vi o tempo passar, além do desafio, que é sempre bem vindo!!!

Quanto ao livro ainda estou lendo! Que vergonha! Assim que terminá-lo faço um post sobre! Ok?!!!

Obrigada Margarida!!! Vc é uma pessoa muito especial!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Selinho

Olá, meus amigos queridos!
Em primeiro lugar quero agradecer a todos vocês pelo carinho nos comentários e por estarem comigo mesmo com esse meu jeito meio que maluco, indo e vindo!!!

Recebi há algum tempo um selinho da Livia do Blog Letrinhas Dispersas fiquei de postar aqui e não consegui. Hoje quando fui postar os selinhos que ganhei não consegui entrar no blog dela. Então, se alguém tiver contato com ela, por favor, avise que estou tentando encontrá-la e que não estou conseguindo... Obrigada!!!

Ganhei esse selinho lindo da Lolipop do Banzai. Adorei!!! Vc é uma amiga mais que especial! Te adoro!


Encontros e Despedidas
Milton Nascimento
Composição: Milton Nascimento / Fernando Brant

Mande notícias
Do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço
Venha me apertar
Tô chegando...

Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero...

Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega prá ficar
Tem gente que vai
Prá nunca mais...

Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai, quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir...

São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem
Da partida...

A hora do encontro
É também, despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida...

O que me faz feliz é poder estar aqui.

Repasso este selinho com muito carinho para:
Talles - Talles Azigon
Hamilton - Profundo Pensar
Livia - Letrinhas Dispersas

Um beijo grande para todos,
Mi

Segundo Sol

"Sou testemunha perdida dos teus gritos de amor das tuas lágrimas partidas."


"Eu só queria te contar
que eu fui lá fora
e vi dois sóis num dia
e a vida que ardia sem explicação"
(Nando Reis)


Acrílico e textura sobre tela
100cm x 100cm